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Anatomia de uma Queda – e as mortes indecifráveis

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  O filme Anatomia de uma Queda de Justine Triet – França, 2023 – não precisa de mais uma resenha. Aclamado, mas também controverso, muita gente boa já analisou este cult do cinema europeu sob diversos aspectos. Questões como machismo, misoginia, gênero, posições do feminino e masculino em uma relação conjugal, foram muito discutidas. Isso sem deixar de mencionar, claro, a forma como se desenrola esse suspense policial em seu infindável julgamento da mulher suspeita de ter empurrado o marido janela abaixo, causando sua morte. O que intriga no filme, para muitos é que a queda de Samuel, marido de Sandra, não é esclarecida. Essa morte suspeita, que resulta num processo e julgamento extensos – sendo Sandra, a esposa do morto, suspeita e ré – não tem um veredicto. Será que não? Muitos de nós ficamos com a sensação de que nada foi esclarecido no filme. Apenas que, o filho do casal, numa tentativa desesperada de montar um quebra cabeça de fatos, decide, ao final, “salvar” a mãe da cond...

O estigma e o desvio em Dias Melhores

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  Dias Melhores, filme de Hong Kong dirigido por  Kwok   Cheung   Tsang , candidato ao Oscar de melhor filme estrangeiro em 2021 ,  traz à tona, numa  primeira observação , a questão do  bullying  como foco da trama. E esse é, sem dúvida, o principal reclame que o filme faz  aos seus telespectadores num primeiro plano. No entanto, todo o enredo deste tocante filme pode nos fazer pensar sobre algo que vem muito antes do  b ullying: o estigma.   O sociólogo  norte-americano  Erwin Goffman, em seu  livro  “Estigma – Notas sobre a manipulação da identidade deteriorada” ,  demonstra como as sociedades, ao longo dos séculos, trataram de criar estereótipos daqueles  sujeitos  que devem ser considerados os seres humanos “normais” e, com isso, automaticamente, aqueles que não se enquadram nesse campo acabam sofrend o toda a sorte de discriminação – os estigmatizados. Entretanto, fica a pergunta  na con...

Torto Arado: para além de um romance

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    Maria Carolina Amendolara   Marcos Aquino   Torto Arado é ficção. Mas, poderia não ser. Ou, melhor dizendo, o premiado livro do jovem escritor Itamar Vieira Junior evoca uma realidade que permeou e ainda permeia a trajetória de  milhares  de  Belonísias ,  Bibianas ,  Salustianas ,  Zecas , Marias Caboclas, Severos. São es se s os personagens que ilustram a saga mais realista que já foi escrita sobre o destino das pessoas que viveram sob o signo da escravidão no Brasil e que, uma vez libertas, experimentaram a ficção que foi a  a bolição da escravatura no Brasil. Pelo menos, num primeiro momento.   Os negros libertos no Brasil do Século XIX vagavam sem rumo, sem prumo, sem oportunidades, sem acesso a nenhum tipo de direito e, ainda por cima, sem direito à terra. Num primeiro momento, claro, sem direito ao trabalho na terra porque estavam “livres”. Mas, depois, ao  se darem conta  que só sabiam lidar com lavouras ,...